Simples passo a passo para identificar estresse em videiras

Na maioria das vezes, se você não trabalha com agricultura, provavelmente você não se preocupa como será o clima na semana. Os produtores e profissionais que trabalham com agricultura não observam o clima. Eles o vivem. O clima é o ingrediente mais importante na qualidade e quantidade de seu produto.

De fato, o sol, o vento e a chuva são os principais insumos para uma indústria que foi responsável por 23,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2017, a maior participação em 13 anos.

Fatores que causam foto-oxidação das folhas em videiras (estresse)

Em muitas regiões climáticas semiáridas e áridas, onde a uva é amplamente cultivada em escala comercial, estresses abióticos, como salinidade do solo, altas temperaturas, radiação ultravioleta (UV) e escassez de água são os principais fatores que contribuem para a foto-oxidação das folhas de videiras (estresse).

O estresse oxidativo causado por radiação ultravioleta, alta temperatura e seca, pode causar desnaturação de proteínas (tanto estruturais quanto funcionais). Este tipo de foto-oxidação pode comprometer o desenvolvimento do parreiral, pois mais de 90% de produtividade de uma área são assegurados pela atividade fotossintética das folhas.

Em regiões de clima temperado, apesar das temperaturas serem amenas, as plantas também estão sujeitas ao estresse pois, apesar das chuvas de inverno poderem ter preenchido todo o perfil do solo, durante o verão a videira está sujeita à baixa disponibilidade de água no solo, acompanhada frequentemente por elevado nível de temperatura, radiação ultravioleta e défice de pressão de vapor de água atmosférico. Estas condições podem interferir nos processos fisiológicos, morfológicos, bioquímicos e moleculares da planta. Essas alterações podem comprometer a produtividade e qualidade do parreiral. Além disso, plantas mais debilitadas também são mais sujeitas ao desenvolvimento de doenças.

Visando melhorar a condição do seu parreiral, reduzindo o estresse oxidativo das folhas de videiras, o consultor e Eng. Agrônomo Newton Matsumoto, da empresa Rupestris desenvolveu um teste simples que visa monitorar o nível de foto-oxidação em folhas através da condutividade elétrica da solução de amostras com folhas de videiras.

Figura 2: Folhas de videiras sem e com sinais de estresse foto-oxidativo

Objetivo deste tipo de monitoramento

O monitoramento dos níveis de foto-oxidação visa auxiliar na redução do estresse da planta, possibilitando melhor taxa fotossintética da videira. Isso irá resultar para o produtor melhor ganho na produtividade e maior qualidade da fruta.

Como fazer o teste e monitoramento

Materiais necessários:

  • 20 folhas de videira
  • Um furador de couro nº10 (10mm)
  • Água destilada
  • Condutivímetro com leitor de 200 us/cm (microsiemens/cm)
  • Planilha para arquivar os resultados

Passo a passo para fazer o teste

  1. Coleta da amostra (folhas) – Você deve coletar as folhas que se encontram opostas ao cacho. No total serão necessárias 20 folhas por área ou parcela em que você deseja realizar o teste.

    Newton Matsumoto
    Figura 3 – Coleta da amostra – Folha oposta ao cacho.
  2. Limpeza das impureza das folhas – Antes do teste é importante lavar todas as folhas com água corrente visando a retirada de possíveis resíduos na superfície foliar. Após a lavagem, disponha as folhas para secar o excesso de água em condições ambiente.
    Figura 4 – Limpeza das impureza das folhas

    Figura 5 – Secagem das folhas para o teste.
  3. Corte de círculos para amostra – Separe a amostra de 20 folhas em 4 grupos de 5 folhas cada amostra. Em cada folha você deve retirar 5 círculos de tamanho padrão 10mm, totalizando 25 cortes por cada amostra de 5 folhas. Retire os círculos com auxílio de furador de couro número 10 (10mm).
    Figura 6 e 7 – Corte das amostras em círculos.

    Figura 6 e 7 – Corte das amostras em círculos.
  4. Imersão da amostra em água destilada – Após o corte da amostra (25 círculos) de cada grupo das 5 folhas, você deve fazer a imersão da amostra em um copo com água destilada (50ml) por um período de 24 horas. Anote o número da amostra e a parcela no copo.

    Figura 8 – Imersão da amostra em água destilada.
  5. Leitura da condutividade elétrica da amostra – Após 24 horas da amostra em imersão, você deve realizar a avaliação de condutividade elétrica com auxílio de um Condutivímetro com leitor de 200 us/cm.

    Figura 10 – Leitura da condutividade elétrica da amostra.
  6. Registro dos resultados – Em uma planilha, você deve anotar os resultados das amostras. Assim, para cada parcela você terá 4 resultados. Para facilitar a leitura você pode fazer a média dos resultados e obter um resultado por parcela.

Clique aqui para baixar uma planilha para registrar os resultados das amostras do teste de estress foto-oxidativo.

Condutividade Elétrica

Condutividade elétrica (CE)  é a medida de todos os íons que conduzem eletricidade na solução. Quanto maior for a quantidade de íons presentes na solução água + soluto, mais energia elétrica poderá ser conduzida entre esse íons e, por consequência, maior será a EC.

A água destilada não conduz eletricidade, ou seja, CE da solução é neutra. Após 24 da amostra em imersão, os íons que estavam presentes na amostras (círculos) irão migrar para a solução que estava neutra passando a aumentar a CE da solução. Assim, quanto mais íons (eletrólitos) na amostra, maior será a condutividade elétrica, e maior será será a taxa de foto-oxidação na planta.

Interpretando os resultados

Os parâmetros de foto-oxidações (estresse) poderão ser estabelecidos na própria fazenda. Segundo observações de campo do Eng. Newton Matsumoto, áreas com folhas totalmente verdes apresentaram condutividade elétrica abaixo de 30 us/cm. Quando as folhas iniciavam sinais de descoloração (amarelecimento das folhas), a condutividade elétrica era de 70 us/cm; já em casos mais avançados, onde as folhas apresentavam queimaduras, observou-se condutividade elétrica de 100 us/cm.

Baseado nas observações acima, o Eng. Newton adotou o valor de 40 us/cm como deadline (gatilho) para iniciar aplicações de produtos anti-estressantes com a finalidade de baixar o valor de foto-oxidação da planta.  Em áreas com condutividade elétrica de 40 us/cm, não são necessárias aplicações com produtos anti-estressantes.

Observações de campo

      • Após a implementação desse teste em sua fazenda, o Eng. Agrônomo Newton Matsumoto constatou alguns fatores:
      • Os sintomas da foto-oxidação, principalmente em variedades sensíveis (Arra 15, Itália), iniciam-se após os 70 dias após a poda. Nessa ocasião, foi verificado que níveis de condutividades elétricas se encontravam superiores a 40 us/cm (gráfico abaixo).
      • No segundo semestre do ano devido às altas temperaturas e altos índices de UV  (Índice ultravioleta) na região do Vale do São Francisco, as plantas são mais sujeitas aos efeitos de estresse (gráfico abaixo).
      • Os resultados do uso deste simples sistema de monitoramento, foram confirmados através de testes de prolina na planta. A prolina é aminoácido disponível na planta e está diretamente relacionado ao nível de estresse na planta. Assim, em condições de mais estresse a planta tende a produzir mais prolina.

Medidas para reduzir o estresse em videira

Embora os mecanismos da própria planta possam contribuir para evitar o estresse durante seu ciclo de vida, a tolerância também pode ocorrer no nível celular. Uma das respostas de estresse mais comuns em plantas é a produção excessiva de alguns solutos orgânicos. Esses solutos são geralmente carboidratos, como açúcares, aminoácidos e proteínas que atuam como osmólitos. Prolina é um deles que se sabe que ocorre amplamente em plantas superiores e normalmente se acumula em grandes quantidades em resposta a estresses ambientais.

A nível de campo, algumas práticas podem serem executadas visando a redução do estresse na planta. Por exemplo:

  • Irrigações parceladas durante o dia, pulverizações com algas marinhas e produtos antitranspirantes, e uso de matéria orgânica no solo;
  • Manejo adequado da fertirrigação, visando melhor controle da condutividade elétrica dentro dos níveis ideais para a cultura;
  • Aplicações de fertilizantes ricos em aminoácidos osmoreguladores (prolina, serina e glicina).

Considerações Finais:

O monitoramento do estresse foto-oxidativo vem ajudando a fazenda FAN (Fazenda Nova) nas atividades de campo da empresa. Utilizando esse monitoramento do índice de foto-oxidação, “conseguimos manter a folha sem foto-oxidação até a colheita, garantindo assim maior potencial produtivo na safra atual e na seguinte” afirma Newton Matsumoto (Eng. Agrônomo e proprietário).

Assita o vídeo do agrônomo Newton Matsumoto falando sobre o uso teste em sua empresa.

Você também pode utilizar esse teste em sua área. Caso você tenha alguma dúvida sobre o teste, envie um email para mim.

Eu gostaria de agradecer ao consultor Newton Matsumoto por compartilhar seus conhecimentos e suas experiências com a comunidade do Vittis. Ao Charles Galvão por sua assistência durante toda a produção do artigo.

Agradecimentos:

Eng. Agronômo, Emanuel Almeida

Dr. Celson Pommer