Como identificar podridões em uva de mesa na pré-colheita de forma simples

Se você é um produtor de uva de mesa, agrônomo ou trabalha com viticultura, você sabe o quanto podridões em uvas de mesa, na pré ou pós-colheita, pode causar grandes perda financeira para os produtores, bem como o para o supermercados ou redes atacadistas. No Brasil e em muitos outros países, fungos como Botrytis, Rhizopus, Aspergillus e Penicillium, bem como bactérias e leveduras são os principais responsáveis ​​por incidência de podridões na pré-colheita. Na pós-colheita, a podridão é causada principalmente pelo fungo Botrytis cinerea,  no entanto, existe outros fungos e bactérias que também causam podridões na fruta. A ação desses microrganismos depende da qualidade da fruta no campo, da forma que a fruta embalada e das condições de armazenamento.

Visando reduzir os riscos de podridões da uva na pós-colheita, eu juntamente com a especialista em pós-colheita a eng. agrônoma, Escarlett Jelvez, escrevemos esse guia de um teste prático para identificar o nível de podridões na sua área na fase de pré-colheita da fruta. 

Esse teste foi desenvolvido e testado pela primeira vez pela empresa Del Monte no Chile. No entanto, o mesmo está sendo adotado em diversas empresas exportadoras de uva de mesa na América do Sul.

O objetivo desse teste é identificar os níveis de podridões na área que será colhida, bem como, melhorar desde as aplicações de agroquímicos no campo antes da colheita da uva, até evitar possíveis complicações na chegada da fruta no destino final.

O resultado desse teste irá te direcionar na tomada de decisão no momento da venda da fruta. Assim, nas áreas onde o teste identificar maior índice de fungos na fruta, recomenda-se você direcionar essa fruta para um mercado consumidor mais próximo, ou seja, a fruta será vendida mais rápido e a probabilidade de problemas com podridões serão reduzidas. Maior índice de  fungos             mercado comercial mais próximo  

Materiais utilizados para fazer o teste:

  • 50 bagas de uvas, sendo estas representatives de acordo com o padrão de baga da área.  
  • Álcool  90%
  • Tesouras de colheita
  • Agua destilada
  • Aspersor de agua
  • Cumbucas ou vasilha transparente
  • Pinça
  • Lamparina

Preparando o teste:

  • Coletando as bagas de uva de mesa no campo:

O teste deve ser feito 3 – 5 dias antes da colheita. Nesse teste você irá utilizar 50 bagas de uva com pedicelo, a amostra deve ser representando um 1% da área que será colhida. As bagas deverão serem coletadas de forma aleatória na área. A amostra deve ser representativa com a condição da área, ou seja, você deve coletar as bagas com mesmo padrão de tamanho e maturação. O caminhamento na área para coleta das bagas, é recomendado que seja feito em forma de X ou Z, veja o esquema abaixo.

Passos para montar o teste:

  1. O teste deve ser feito em um local limpo, para isso, você deve aplicar o álcool 90% na superfície (mesa ou bancada) onde você irá trabalhar, como também nos materiais de trabalho (cumbuca ou vasilha  e pinça).

2. Pegue uma cumbuca ou  um vasilha transparente, faça três camadas de papel toalha cobrindo todo o fundo da cumbuca ou vasilha; depois você deve umedecer o papel com água destilada. 3. Com auxílio de uma pinça, você deve pegar as bagas  pelo pedicelo e  colocar dentro da cumbuca (4 bagas por fila). As bagas devem ficar separadas umas  bragas das outras. Repetir o mesmo procedimento com o restante das bagas que serão depositadas em 3 cumbucas, ou mais. O número de bagas por cumbuca irá depender do tamanho da cumbuca.

Forma correta de trabalhar com as bagas que serão utilizadas no teste.
Como você deve posicionar as bagas na cumbuca ou vasilha. O número de bagas por cumbuca irá depender do tamanho da cumbuca ou vasilha.

4. Coloque a identificação do teste: nome da parcela, numero da cumbuca, a variedade, data, idade, etc… Você pode tirar fotos no primeiro e no último dia do teste para comparar o antes e o depois das bagas no final do teste.

Identificação da área/parcela que está sendo avaliada.

5. Após colocar todas as bagas dentro da cumbuca ou vasilha, você deve fechá-las e colocá-las dentro de uma sacola transparente; fechá-la de forma hermética, do jeito que não permita a entrada de ar dentro da sacola, e assim evitar contaminação externa da amostra.   7. Após o fechamento das sacolas com as cumbucas, você deve armazená-las em local limpo, em temperatura ambiente (20 a 25ºC). Não mexer nas amostras até o dia da leitura das amostras, que deve ser feito após o terceiro dia do início do teste.

Armazenamento das cumbucas que estão sendo avaliadas.

Avaliação do teste

Como a avaliação do teste deve ser feito em duas fases, é importante você ter uma planilha para armazenar as informações coletadas nas avaliações. As informações dessa planilha irá te orientar na tomada de decisão no momento da colheita da uva. Para te ajudar a salvar as informações do seu teste, nós já criamos uma planilha e estamos disponibilizando para você, basta você clicar aqui .

Primeira avaliação: 3 dias após o início do teste, você deve verificar cada cumbuca e conferir se alguma baga está infectada com podridão, após disso, calcular o porcentagem de infecção. Salve informações coletadas na planilha. % DE  INCIDENCIA: número de bagas afetadas/ nº total de bagas da amostra X 100

Primeira avaliação de podridões

b. Segunda avaliação: Deve ser realizado 3 dias depois da primeira avaliação. O procedimento é o mesmo, você deve verificar cada cumbuca e conferir se alguma baga está infectada com podridão, assim, calcular a porcentagem de infecção. Salve informações coletadas na planilha, é muito importante que as amostras já avaliadas sejam descartadas fora do laboratório onde o teste está sendo feito o teste, evitando assim a recontaminação das novas amostras. % DE  INCIDENCIA: número de bagas afetadas/ nº total de bagas da amostra X 100   

Segunda avaliação de podridões

Como aplicar os resultados para tomada de decisão no momento da colheita

Os resultados do seu teste irão te direcionar para qual mercado você irá vender sua fruta. Assim, a área com maior porcentagem de podridões, recomenda-se que a comercialização seja realizada para um mercado mais próximo, ou seja, com menos tempo de transporte e armazenamento da fruta. Outro fator importante, é que o resultado do teste também irá te orientar no tipo de gerador de SO2 você deverá utilizar momento da embalagem, como também, o uso do bottom pad visando aumentar a vida útil da fruta no armazenamento. Além dos benefícios citados acima, o resultado deste teste pode te ajuda a realizar um melhor programação de pulverização para próxima safra buscando a redução de fungos causadores de podridões. 

O nível de incidência de podridões é variável de acordo com a variedade de uva analisada. Veja na tabela abaixo os níveis considerados críticos para cada tipo de variedade. Esses valores de referência foram  e estão sendo utilizados pela Eng. Agrônoma Escarlet nas safras de 2016 e 2017 em Ica, Peru.

Tabela 1: Percentuais críticos por  variedade de uva de mesa utilizados na região de Ica, Peru na safra de 2016/2017.

 Exemplos de podridões mais identificadas neste teste

Podridão Primária e secundária de Botrytis

Levaduras Cladosporium sp. Aspergillus niger Variedade: Red Globe     Variedade: Thompson Seedless Variedade: Sugraone/Festival  

Medidas de controle para podridões:

O controle de podridões depende principalmente das estratégias de manejo que você deve tomar no campo para prevenir problemas futuros na fase de armazenamento da fruta. As medidas de prevenções são adotadas com a utilização de tratos culturais, e/ou em alguns casos com a aplicação de fungicidas. Com objetivo de reduzir podridões na frutas, várias medidas deverão serem adotadas durante a produção e processamento da fruta:

Pre-colheita (Campo):

  • Manejar as plantas visando reduzir áreas com excesso de folhas ou sombreamento;
  • Fazer monitoramento da incidência de doenças como: Míldio e Oídio, durante o período de crescimento da baga, e especialmente, perto da maturação da baga;
  • Aplicações preventivas com fungicidas durante o período de crescimento da bagas, em alguns casos, na fase de pré-colheita;
  • Em casos de aparecimento de podridões ou após períodos de chuvas, você deve fazer um programa de pulverização específico visando reduzir a proliferação de podridão na área. Em alguns casos, os primeiros sinais de podridões é o escorrimento de um líquido na baga.
Tabela 2: Exemplo de um programa de aplicações para controle de podridões em bagas de uva de mesa.

Colheita:

  • Colher a fruta de forma cuidadosa, evitando danos mecânicos na fruta;
  • Fazer limpeza das bagas podres do cacho;
  • No momento da colheita você deve retirar da área todas as bagas com podridões ou o refugo (usa sem qualidade). As uvas de descartadas deverão serem recolhidas em contentores específicos para esta finalidade. No final da colheita do dia, esses contentores devem ser colocados fora do parreiral, e destinado um aterro longe da área de produção ou para compostagem. O resto da colheita (bagas) deve ser retirado da área, pois as bagas deixadas na área ajuda na proliferação de fungos e moscas-das-frutas.

Embalagem da fruta (Packing):

  • Manusear a fruta de forma cuidadosa durante a colheita e embalagem, para minimizar as lesões  na fruta. Isso irá reduzir a chance de aparecimento de podridões na fruta durante o armazenamento;
  • Utilize gerador de SO2, de natureza química ou não química. O uso de SO2 reduzir o aparecimento de podridão, e ajuda a manter a qualidade da fruta.  A utilização de folhas de SO2 (gerador) tornou-se parte integrante do processo de pós-colheita de uva de mesa, mesmo que o armazenamento da fruta seja feito de curto ou médio prazo.

Armazenamento (Câmara fria):

  • Utilizar baixas temperaturas para armazenar a uva. O frio precisa focar em limitar a probabilidade de novas infecções e reduzir a propagação de podridões. Neste esforço, a gestão da temperatura desempenha um papel importante para garantir uma melhor qualidade da fruta.  O nível de frio utilizado irá depender da variedade armazenada.
Tabela 4: Temperatura mais utilizada em câmara fria para armazenamento de uva de mesa.

  • Fazer monitoramento semanal ou quinzenal para verificar incidência de podridões na fruta. O objetivo do monitoramento é ter uma visão da carga microbiana e bacteriológica que tem na fruta, e assim poder fazer correções no transporte, embalagem e destino da fruta. Por fim, minimizar os riscos de podridão na chegada da fruta.
  • É importante ter um registro  do histórico de podridões das parcelas/áreas. Esse registro irá te orientar nas tomadas de decisões no momento da aplicações de agroquímicos, irrigação, fertirrigação e  monitoramento de pragas e doenças.    Assim, você irá ter mais atenção das atividades nas parcelas com mais registros de problemas.

Considerações Finais:

Nos testes em que os resultados indicam níveis de podridões acima de 10%, recomenda-se o monitoramento das frutas na pós-colheita a cada 5 dias. Neste casos, também é recomendo a vender da fruta para um mercado consumidor mais próximo, evitando o transporte e armazenamento prolongado da fruta.

Se você tem mais alguma dúvida sobre podridões em uva de mesa, ou outros assuntos ligados a produção de uva de mesa, por favor entre em contato conosco através da nossa página de contato.