Como aumentar o tamanho da baga da uva aplicando ácido giberélico

As uvas sem sementes naturalmente apresentam tamanho de bagas que estão aquém das exigências de mercados brasileiros e internacionais devido ao fato da ausência de semente. Como você sabe, as sementes tem um papel importante na fase de crescimento da baga, pois elas produzem ácido giberélico interna que faz com que a baga cresça naturalmente. Com o objetivo de suprir a exigência do mercado interno e externo, o uso de giberelina ou ácido giberélico (GA3) tornou-se indispensável para a melhoria da qualidade dos cachos, resultando em uma melhor qualidade comercial, consequentemente aumentando a baga da uva.

Com um mercado consumidor mais exigente e disposto a pagar por produtos com alta qualidade, a uva sem semente virou a queridinha nas prateleiras das redes de supermercados e hortifruit. Na década passada foi introduzida no mercado como novidade, aos poucos foi se popularizando, até o momento em que se tornou uma exigência para alguns países. Nos Estados Unidos,  as  uvas  apirênicas  já dominaram o mercado, enquanto que na Europa é crescente  a  demanda  por  uvas  sem sementes.

Nesse artigo, você irá conhecer os principais pontos importantes na aplicação de giberelina na videira:

  • O que é giberelina ou ácido giberélico?
  • Uso de giberelina na videira
  • Local de atuação de giberelina
  • Formas de aplicações do giberelina no campo:
  • Principais problemas com a aplicação de GA3 em toda a planta
  • Condições que interferem na aplicação de giberelina
  • Uso de bioestimulantes

O que é giberelina ou ácido giberélico?

A giberelina é considerado um hormônio vegetal e na natureza é encontrado em plantas, fungos e bactérias. Esse hormônio foi descoberto por agricultores japoneses ao observarem que algumas plantas de arroz possuíam um crescimento excessivo, e isso fazia com que elas não suportassem seu próprio peso, causando seu tombamento e morte. Para esse sintoma os agricultores deram o nome de “bakanaê”, que significa “planta boba” ou “muda tolo”, dependendo do estádio (fase) fenológico da planta.

Apenas em 1926, um fisiologista japonês demonstrou que o alongamento excessivo de plantas de arroz era causado por uma substância secretada por um fungo do gênero Fusarium. Essa substância foi isolada em 1930 e denominada de giberelina, esse nome ajudou para nomear o estádio sexual do fungo, o qual passou a ser chamado de Gibberella fujikuroi.

Atualmente 136 tipos de giberelina já foram identificadas, no entanto, a GA3 é a mais utilizada na vitivinicultura para diversos fins: aborto químico, alongamento de cacho, crescimento de baga e supressão de sementes. O produto comercial utilizado como fonte de giberelina (GA3)  no Brasil é o ProGibb, que contém 10% ou 40% do regulador de crescimento.

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Uso de giberelina na videira

A aplicação do ácido giberélico (GA3) na viticultura, tem como principal função aumentar o tamanho das bagas, entretanto, ela também atua na descompactação dos cachos e eliminação de sementes. Quando aplicado cerca de 15 dias após o florescimento podem promover o menor pegamento de flores (raleio químico) e um maior alongamento do cacho (engaço).

O raleio químico é importante pois sua prática torna os cachos mais soltos (descompactados) devido ao menor no número de bagas que permanecem no engaço, criando desta forma um ambiente favorável para o crescimento das bagas de uva. Outro ponto positivo dessa prática é a redução de doenças fúngicas, pois não ocorre à formação de um microclima úmido dentro dos cachos de uva, que associado ao calor faz com que doenças se desenvolvam. Além disso, essa descompactação garante que a calda aplicada, de GA3 ou qualquer outro produto, atinja todas as bagas do cacho.

Para atuar aumentado o tamanho das bagas, que é o foco principal do artigo, outras aplicações de ácido giberélico são necessárias quando as bagas estiverem entre 3 e 5 mm de diâmetro, dependendo da variedade, na qual atuam promovendo o aumento do seu tamanho e diâmetro, como consequência, um ganho no peso das bagas.

Visando o aumento da qualidade das uvas produzidas, alguns viticultures fazem uso de outros hormônios vegetais além da giberelina, tais como: ácido abscísico (ajuda na coloração de videiras), citocininas (crescimento de baga), auxina (regulação do desenvolvimentos das bagas e enraizamento etc..).

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Efeitos de giberelina em cachos de uva sem semente.

 Local de atuação de giberelina

Nas plantas, as giberelinas ou ácido giberélico são hormônios produzidos nos tecidos apicais, como em gemas, folhas e entrenós jovens com crescimento ativo. A principal característica da giberelina é seu efeito sobre o alongamento dos internódios em certas espécies de plantas, mas também a sua participação na regulação dos processos de mudança na juvenilidade e determinação do sexo da flor, promoção do pegamento e crescimento do fruto. O efeito da giberelina é variável em função da variedade copa e porta-enxerto, concentração, modo e época de aplicação e das condições ambientais.

Veja abaixo um programa de aplicação de GA3 em áreas comerciais no Submédio do São Francisco.

Formas de aplicações do ou ácido giberélico no campo:

A aplicação dependerá do tamanho da área, acessibilidade e disponibilidade de máquinas agrícolas maiores. Podendo assim, ser utilizado desde equipamentos simples em áreas menores ou intransitáveis às máquinas grandes, como, por exemplo, o pulverizador costal manual, até a utilização de um pulverizador eletrostático ou Arbus 1000 tracionado por trator, para áreas maiores e de fácil acesso.

Pulverização localizada – Imersão do cacho

Esse tipo de aplicação consiste em imergir o cacho dentro da solução contendo giberelina. Essa prática não é realizada em grande escala porque demanda muita mão-de-obra, tendo em vista que todos os cachos deverão passar pelo mesmo processo de imersão. Em algumas variedades, esse tipo de aplicação aumenta a espessura do engaço, pois, a giberelina terá ação tanto na baga quando engaço.

Pulverização localizada – Costal (Manual)

A forma de aplicação consiste basicamente em molhar todos os cachos da planta com o produto. Quando utilizado o pulverizador costal, a qualidade da aplicação dependerá totalmente do aplicador, logo, o mesmo deve receber um treinamento prévio básico para que a eficiência da aplicação seja garantida.

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Imagem 1 – Aplicação localizada utilizando o sistema de pulverização manual.

Pulverização localizada – Mecanizado (Trator)

A aplicação mecanizada de giberelina é realizada de 3 formas: convencional com ventilador, Turbina com “mãozinha” ou eletrostático. Dentre esses três sistema de aplicações, o mais eficiente para giberelina é o pulverizador eletrostático.

Convencional com ventilador:

Na aplicação utilizando o Arbus 1000 (imagem 1 e 2 ), deve-se regular o tamanho da barra para não ocasionar danos mecânicos nos cachos durante a aplicação. Outro ponto importante é a velocidade em que o implemento será tracionado, pois ela dependerá do tipo de bico utilizado e volume de calda. Nesse sistema há uma irregularidade na ventilação, o que irá interferir na qualidade de aplicação.

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Imagem 1 – Aplicação de giberelina utilizando o sistema convencional com ventilação (“barra”) – Arbus 1000
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Imagem 2 – Aplicação de giberelina utilizando o sistema convencional com ventilação (“saia”) – Arbus 1000

Turbina com “mãozinha”

Este é o segundo melhor sistema de aplicação para giberelina, devido a ventilação mais uniforme e que consegue dissipar as goras mais finas nesse sistema.

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Aplicação de giberelina utilizando o sistema Turbina com “mãozinha”

Eletrostático:

O uso do pulverizador eletrostático possui como principal vantagem o aumento da eficiência de aplicação, pois todas as gotas carregadas eletricamente são direcionadas para atingir o alvo, que nesse caso, são as folhas e os cachos. Assim, esse sistema proporciona uma distribuição mais homogênea das gotas em todo o cacho, tanto na parte externa quanto na parte interna e ao considerar as bagas é possível de se despistar gotas em toda a circunferência da baga.

Como as gotas são carregadas eletricamente,  há uma redução do consumo de água por aplicação, por exemplo, numa pulverização convencional utilizando o sistema de ventilação, utiliza-se 700 – 1000 litros de água por aplicação, já com o sistema eletrostático são utilizados 90 litros de água por aplicação. Também devemos lembrar que, nesse sistema reduz a evaporação, possível contaminação do solo, quantidade de água e produto utilizado, sejam reduzidas quando comparado a uma aplicação convencional.

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Aplicação de giberelina com pulverizador eletrostático.

Novas Tecnologias:

Nos últimos anos, algumas fazendas no Chile vêm optando por um novo equipamento, chamado de Patohormoneador para realizar as aplicações do ácido giberélico diretamente nos cachos de uva de forma individualizada. Seu uso faz com que  as bagas possam aumentar seu tamanho em cerca de 20%. Para o aplicador, a sua utilização facilita o trabalho tendo em vista que não há necessidade de efetuar várias aplicações nos diferentes lados do cacho para que a calda atinja todas as bagas do cacho. Além disso, a concepção do instrumento permite que o excesso da calda contendo giberelina retorne para o tanque da bomba, gerando com isso uma maior economia devido à redução do desperdício.

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Método de Aplicação de giberelina utilizando o equipamento Patohormoneador.

O equipamento e a forma de aplicação podem ser vistos no vídeo logo abaixo.

Aplicação de GA3 no Chile utilizando o Patohormoneador

Principais problemas com a aplicação de GA3 em toda a planta

Quando a pulverização do ácido é realizada em toda a planta, a giberelina faz com que seja promovido o crescimento de todas as partes atingidas, devido a isso, o deslocamento de nutrientes não se concentra apenas nos cachos. Em algumas variedades, quando o ácido giberélico atinge as gemas novas a sua ação pode fazer com que a frutificação seja prejudicada, pois o seu contato com essas gemas inibe a formação de primórdios de inflorescência (futuros cachos) devido a uma baixa na relação citocinina/giberelina endógena. Isso acarreta no aumento do vigor das plantas, como consequência, a planta passa a apresentar desenvolvimento e a maturação dos frutos de maneira desuniforme no próximo ciclo.

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O excesso de giberelina também pode aumentar a espessura da ráquis ou engaço (toda a estrutura herbáceo-lenhosa do cacho). Isso consequentemente, pode aumentar o percentual de degrana (bagas soltas do cacho) em algumas variedades, a exemplo, Thompson Seedless.

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Dano na ráquis do cacho (engaço) causado pelo excesso de giberelina.

Condições que interferem na aplicação de giberelina

  1. Altas temperaturas: não é aconselhada a aplicação de GA3 em temperaturas elevadas devido a perda do produto por evaporação, sendo assim, as aplicações deverão ser realizadas em horas mais frescas do dia.
  2. Ventos fortes: podem acarretar na perda do produto, tendo em vista que ele não atingirá os cachos, dessa forma, o ideal é evitar a aplicação. Entretanto, caso a aplicação não possa ser adiada, deve-se aproximar o bico da bomba ou barra de aplicação o máximo possível dos cachos, sempre evitando danos mecânicos. Vale ressaltar que a direção do vento é um fator importante no momento da aplicação, no qual, o aplicador deve estar no sentido contrário para não entrar em contato com o produto durante a realização do trabalho.
  3. Chuva: deve ser evitado a aplicação quando houver chuva ou orvalho, pois a umidade excessiva pode prejudicar o desempenho do produto. Isso poderá ocorrer devido a redução concentração do produto na área ou até mesmo a retirada do produto causado pela lavagem da chuva.

Além desses fatores ambientais que podem inviabilizar a aplicação, outros cuidados devem ser tomados quando a aplicação é de forma mecanizada. Antes de cada aplicação devemos sempre verificando se o filtro de sucção está limpo, ter certeza de que as mangueiras não estão dobradas ou furadas, que a bomba não apresenta vazamentos e está lubrificada, se os bicos são todos do mesmo modelo e que não estão danificados. Logo, para garantir uma alta eficiência, é de grande importância manutenção e regulagem dos implementos.

Uso de bioestimulantes

Bioestimulantes são uma mistura de hormônios com compostos diferentes, tais como aminoácidos, vitaminas, sais minerais e nutrientes minerais. Por afetarem de alguma forma o desenvolvimento vegetal, são compostos amplamente utilizados na agricultura. Os bioestimulantes mais utilizados atualmente são produtos à base de extratos de algas, que mesmo em baixas concentrações, afetam o desenvolvimento vegetal, aumentam de forma modesta a produção e a tolerância das plantas a estresses bióticos e abióticos.

No Brasil, a utilização de bioestimulantes já vêm sendo bastante explorada nos últimos anos e o seu uso tem demonstrado um aumento quantitativo e qualitativo na produtividade de diversas culturas. A sua aplicação na agricultura moderna teve início em países altamente tecnificados, como, por exemplo, os Estados Unidos, Itália e Espanha.

Segue na tabela abaixo alguns exemplos de Bioestimulantes encontrados no mercado:

Nome comercial Formulação química
Acadian 16% Matéria orgânica, 0.6% C orgânico, 1.01% aminoácidos, carboidratos, N, P, K, Ca, Mg, S, B, Fe, Mn, Cu e Zn.
Actiwave Betaína, ácido algínico, caidrina
Naturamin WSP 8% Aminoácidos, 12.8% N orgânico, 9% Matéria orgânica
Sprint Alga 60% alga marinha, 12% azoto, 8.6% carbamida, 3.4% N orgânico
Stimulate 0.009% citocinina, 0.005% giberelina e 0.005% auxina

Cytoplant-400

100% Extrato natural de algas.

Crop-Set Conjunto de extratos vegetais enriquecidos com minerais complexados por aminoácidos

Alguns estudos encontrados na literatura confirmam os benefícios da aplicação de misturas de ácido giberélico com algum bioestimulantes. Essa prática é bastante realizada no Vale do São Francisco por alguns produtores que visam aumentar a eficiência do GAe ao mesmo tempo melhorar a qualidade do fruto. Algumas dessas misturas poderão ser encontradas no nosso cronograma de aplicação logo abaixo.

Não importa o tamanho do seu parreiral, utilize giberelina nas bagas, e observe o incremento no tamanho de bagas. Mas cuidado! em uvas vermelhas, aplicações de giberelina em altas doses pode afetar a coloração e atrasar a maturação.


Autor: Carlos Roberto Oliveira

Graduando em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Graduação sanduíche no Institute of Technology Tralee (ITTralee - Irlanda). Realizou estágio no Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD-UNIVASF), no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e na Fazenda Brasil Uvas (Labrunier). Possui experiência em caracterização e avaliação agronômica de novas variedades de uva e milho.