Saiba se você deve plantar a nova variedade de uva BRS Vitória

Totalmente brasileira a nova variedade de uva BRS vitória vem ganhando mercado devido ao seu sabor especial. Essa nova variedade foi desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho, e vem sendo cultivada em escala comercial desde 2014. Por mais de uma década, a Embrapa usa uvas vinifera com sabor Labrusca (sabores Concord), em cruzamento para obter variedades com mais sabor e melhor resistência a doenças.

Neste artigo eu vou explicar sobre:

  • As particularidades da variedade;
  • A Característica da planta e fruto;
  • Colheita e Pós-colheita;
  • Principais regiões produtoras;
  • Manejo Cultural;
  • Aspectos Gerais da  Comercialização;

Ao final desse artigo teremos uma entrevista Inédita com Jackson Souza Lopes, Produtor e Consultor do Vale do São Francisco, que produz esta cultivar e presta serviços de consultoria para outros produtores da região do Vale.

1. Particularidades da variedade

Já pensou em comer uvas tendo a sensação de estar bebendo suco de uva? Essa é uma simpática analógia do quanto é gostoso comer uvas da variedade BRS Vitória. Ainda lembro a reacão dos clientes ao degustar essa variedade pela primeira vez, no primeiro dia de campo de novas variedades de uva de mesa no Vale do São Francisco, realizado pelas fazendas Labrunier/Brasiliuvas. Na ocasião estávamos fazendo a demonstracão e realizando uma pesquisa sensorial com 30 novas variedades. Mesmo sem saber o nome da variedade, os participantes estavam admirados com o sabor da tão desconhecida e promissora  variedade em termos de sabor. Após 2 anos desse episódio essa variedade tornou-se a queridinha do mercado nacional de uva negra.

1.1 Característica da planta e fruto

A BRS Vitória é uma uva negra (preta-azulada), com alta fertilidade de gemas, com média de dois cachos por ramo. O peso médio de cachos é em torno de 250-300 gramas. Com essa fertilidade de gemas, o produtor facilmente consegue atingir uma produtividade de 30-40 t/ha/ano. No Vale do São Francisco (Petrolina e Juazeiro) visando obter alta qualidade da fruta, os produtores estão trabalhando com dois ciclos produtivos de 15-20 t/ha/ciclo.

As bagas são esféricas e apresentam tamanho pequeno, medindo em média 17 mm x 19 mm. A película (casca) é grossa o que confere a baga uma leve crocância ao comer a fruta. Traços de sementes são pequenos e quase invisível nessa variedade.

1.2 Colheita e Pós-colheita

Esta variedade desenvolve aroma somente quando elas estão em seu ponto ideal de colheita. O teor de açúcar pode atingir altos níveis, mas recomenda-se a colheita quando a uva atingir pelo menos 19o Brix, pois é neste ponto onde ocorre o melhor equilíbrio entre açúcar e acidez, conferindo-lhe um sabor especial, bem distinto e sem adstringência na casca. Altos teores de açúcar (brix) podem comprometer a qualidade da pós-colheita dessa variedade. Na Região do Vale do São Francisco, para garantir um bom padrão de qualidade e uma boa classicação de mercado, a colheita é realizada quando a fruta apresenta 20-22oBrix e uma acidez de 0,4 à 0,6 g 100 mL-1 de ácido tartárico  de mosto.

É importante frisar que o produtor deve  ter cuidado no momento da colheita, pois a coloração negra não indica que a fruta está pronta para colheita. Uma colheita realizada quando a fruta está com teor de açucar baixo, pode comprometer  o potencial de mercado desta variedade, isto porque, a uva quando colhida com baixo teor de acúcar e com alta acidez apresenta um sabor adstringente.

Nos experimentos que realizei em campo e alguns no qual acompanhei de perto, está variedade apresenta sensibilidade para armazenamento, e os principais problemas de pós-colheita nessa variedade são: degrana, secamento do engaço e enrugamento da casca. É importante mencionar, que todas essas caracteristicas estão diretamente relacionada com o grau de maturação da fruta, ou seja, quanto maior o teor de açúcar, maiores são a incidência dos problemas acima mencionados.  

Então seria fácil resolver esse problema colhendo a fruta com 17º brix? Errado! Essa variedade apresenta uma alta acidez e quando o teor de açúcar está em torno de 16-17º brix isso afeta o sabor especial que é característico da variedade.

Em termos de observação em camara fria, essa fruta quando colhida na maturação ideal (20-22oBrix) pode ser armazenada e comercializada por um período de 30 dias sem grandes problemas.          

2. Principais regiões produtoras

Estima-se que no Brasil a área plantada com está variedade seja de 100 – 200 hectares. Atualmente as principais regiões produtoras são: São Paulo, Minas Gerais, Paraná e no baixo médio São Francisco (Petrolina e Juazeiro).

Segundo informações do pesquisador e um dos criadores da variedade, Dr. João Dimas G. Maia, o potencial produtivo desta variedade depende da região produtora. De acordo com Dimas, o Vale do São Francisco é a região com a maior área cultivada com esta variedade. Nas regiões de São Paulo e Norte de Minas, o clima seco favorece o cultivo, porém a área plantada ainda é pequena. Já nas regiões do norte do Paraná e Campinas, problemas com podridão-da-uva-madura (Glomerella cingulata) poderá limitar a expensão do cultivo se não utilizar o sistema de cultivo protegido.

Entre as regiões produtoras citadas acima a ‘BRS Vitória’ apresenta ciclo produtivo de 90 a 135 dias (poda à colheita). Na tabela abaixo confira os ciclos produtivos e os períodos de colheita em cada região produtora.

Tabela 1. Ciclo da cultivar BRS Vitória nas principais regiões produtoras. Fonte: http://www.cnpuv.embrapa.br/publica/comunicado/cot126.pdf

REGIÃOÉPOCA DE PODA-COLHEITACICLO
Vale do Submédio do São FranciscoJaneiro-Maio
Julho-Novembro
95 - 112 dias
Minas Gerais Junho-Setembro100-110
Paraná Janeiro-Junho
Julho-Setembro
130-135
Centro do Estado de São PauloJaneiro-Junho130-135
Noroeste do Estado de São PauloMarço-Junho 110-125

3. Manejo Cultural

3.1 – Poda e seleção de cacho

Devido a alta fertilidade de gemas dessa variedade, a poda pode ser realizada deixando 3-6 gemas por vara produtiva. No entanto, alguns cuidados são importantes no momento da poda, como a distribuição dos ramos na planta, o que evita assim adensamento de brotos e consequentemente de cacho. A realização dessa prática irá favorecer a uniformidade e maturação dos cachos, como também, irá potencializar o controle fitossánitário durante o ciclo.

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Poda da variedade BRS Vitória, Fazenda Fruttihall em Petrolina-Pe . Foto: JOSÉ ROBERTO PEREIRA

A seleção de cachos é uma atividade importante para a qualidade da fruta produzida. A seleção é uma atividade que é realizada visando eliminar o excesso de cachos, no qual são retirados os cachos mal formados, mal posicionados  e fracos. A não realização ou má realização desta atividade pode comprometer coloração e o sabor da fruta, pois em condições de excesso ou adensamento de cachos compromete a qualidade da fruta.

3.2 – Manejo de cacho – Alongamento de cacho

É característico dessa variedade a presença de cachos dessa pequenos e cilíndricos. Assim,  a aplicação de homônio vegetal (ácido giberélico, ou giberelina) para favorecer o alongamento da inflorescência é necessário. Em algumas regiões de cultivo dessa variedade, os produtores não realizam aplicação de giberelina para esta finalidade, já na região do São Francisco (Petrolina e Juazeiro), os produtores fazem aplicações com giberelina associada com extrato de algas para incrementar o efeito de alongamento da inflorescência (cacho).

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Fase fenológica de aplicação de ácido giberélico para alagamento de inflorescência (cacho) na variedade BRS Vitória em Petrolina-Pe . Foto: JOSÉ ROBERTO PEREIRA

3.3 – Manejo de cacho – Crescimento de baga

O número de aplicacão e a dose de giberelina utilizada  para crescimento de bagas nessa variedade varia conforme a região produtora, porta-enxerto, condições climáticas e idade da planta. É importante destacar, que excesso de giberelina pode afetar o sabor da fruta.

Veja abaixo um exemplo do posicionamento de aplicações de ácido giberélico para a fase alongamento de inflorescência (cacho) e crescimento de baga nesta variedade utilizado por produtores nas regiões de Petrolina e Juazeiro.

Tabela 2. Programa de ácido giberélico utilizado por produtores nas regiões de Petrolina/Pe e Juazeiro/Ba.

FASEDOSE
Alongamento de Cacho
Brotos de 150,5 ppm
Após 4 dias da aplicação0,5 ppm
Crescimento de baga
Bagas de 3 mm1 ppm
Bagas de 8 mm10 ppm
Após 4 dias10 ppm
Após 4 dias10 pmm

4. Aspectos Gerais da Comercialização

Atualmente, o mercado interno tem sido o maior consumidor da variedade Vitória. Uma uva com bom padrão de qualidade (padrão premium) pode ser comercializada por até R$60,00,  a caixa de 5Kg. Para conseguir comercializar a fruta por esse preço o produtor deve se atentar aos cuidados para manter a sabor especial dessa fruta, pois em casos em que a cor ou sabor é afetado, o valor de comercialização da fruta cai em até 50%. Nesse sentido, o produtor deve tomar todos os cuidados necessários no momento da produção da fruta, como: fazer o controle correto do número de cachos/planta, evitar adensamento de cachos, evitar excesso de bagas no cacho, aplicação de giberelina e realizar um bom controle de sombreamento da copa.

Os produtores de Petrolina e Juazeiro estão apostando na produção de uvas com padrão  premium para garantir melhores preços no momento da comercialização.

Uvas Coopexvale
BRS Vitória comercializada pela COOPEXVALE. Foto: COIOPEXVALE Fonte:https://www.facebook.com/Coopexvale/photos/pcb.855782091158214/855782077824882/?type=3&theater

Em termos de exportação, não se tem muitos dados concretos da comercialização dessa fruta no mercado estrangeiro, devido ao seus aspectos de pós-colheita ou shelf life que ainda estão sendo estudados por produtores e orgãos de pesquisa.

Alguns clientes Europeus também tem uma certa restrição a esta fruta devido a mesma ter uma casca grossa que sobra na boca, outros no entanto, ignoram essa característica da fruta em favor do excelente sabor que a mesma possui.

Entrevista Inédita com Jackson Souza Lopes (Produtor e Consultor do Vale do São Francisco.

“A gente acredita que
deve pegar uma fatia do mercado de uvas gourmet, podendo até manter a fruta no mercado durante o ano todo.” — Jackson Lopes.

jacksonFilho de Petrolina e com uma vasta experiência na producão de uva de mesa, Jackson Souza Lopes é engenheiro agrônomo formado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), consultor técnico em viticultura e produtor de uva de mesa, entre elas a variedade BRS Vitória.

  1. Você recentemente foi palestrante em um evento sobre Manejo das Variedades Vitória e Isis. Quem foram os principais participantes deste evento e quais assuntos foram abordados neste evento?

Os principais participantes desse evento foram produtores que não possuem nenhum contrato com nenhuma empresa de desenvolvimento de novas variedades, e cobram royalties para permitir o plantio da variedade. Os principais assuntos abordados foram em relação à tomada de decisão de plantio de uma nova variedade e os pontos positivos e negativos nas variedades BRS Isis e Vitória.

  1. Quais foram as principais dificudade que você enfrentou no cultivo dessas variedades (Na formação, primeira poda, poda de produção e manejo de cacho)?

As principais dificuldades na Isis, foram a formação de laterais e o aborto excessivo dos cachos na floração. Na Vitória, foi conseguir uma produtividade boa (acima de 20 t/ha), visto que os cachos são pequenos. Outro fator, foi concientizar os produtores a colher a fruta sem adstringência.

  1. Baseado em sua experiência de campo, quais são os porta-enxertos mais indicado para estas variedades?

Para Isis, temos tido bons resultados com IAC 313, SO4 e Paulsen. Na Vitória, os porta-enxertos SO4 e Paulsen, têm garantido o sabor característico da variedade.

  1. Quais são os principais mercados da Vitória?

Inicialmente trabalhamos com Mercado interno, mas recentemente estamos mandando alguns carregamento também para exportação.

  1. Você acredita que essa variedade tem potencial para o mercado de exportação?

Devido ao sabor aframboezado da fruta, a gente acredita que deve pegar uma fatia do mercado de uvas gourmet, podendo até manter a fruta no mercado durante o ano todo, visto que está variedade só tem no Brasil.

  1. Que conselhos você daria aos produtores da variedade BRS Vitória para que eles possam produzir uvas com excelente sabor e qualidade premium?

Não exceder na carga (máximo de 25 ton/há por poda) e ESPERAR baixar a adstringência para colher. Ela é diferente da maioria da maioria das variedade, que são colhidas com acidez 0,7 g 100 mL-1 de ácido tartárico de mosto. No caso da Vitória, a acidez deve ser de 0,4 g 100 mL-1 de ácido tartárico  de mosto, a relação BrIx/Acidez deve ser de 45/1.

  1. Vittis: Você pretende aumentar a área de cultivo dessa variedade em sua propriedade?​​

Jackson: Não, pois já temos mais de 30% da área plantada da minha propriedade e o mercado de uvas negras é restrito em 10% do mercado de uvas. Só ampliaremos a área com essa variedade, caso os mercados aumentem a demanda de uvas negras, pois hoje o mercado está em 10% , em função do sabor.

Conclusão:

A BRS Vitória tem excelente potencial produtivo e comercial, principalmente o mercado de uvas  gourmet, no qual a fruta tem um alto valor agregado. Mas, o produtor deve estar atento ao plantio em larga escala, pois o mercado brasileiro de uvas negras corresponde a 10%. 

Outro fator importante sobre essa variedade, é que o ponto de colheita define a qualidade da fruta e consequentemente a comercialização da mesma.

Novas pesquisas de campo e pós-colheita são necessárias para o desenvolvimento de futuros mercados estrangeiros.

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